"[...] Tudo acontecia numa sequencia rapida, sem treguas, mal ele tinha tempo de acomododar-se a uma transformação em sua vida, e logo vinha outra, ainda maior. Que viria agora? - ele se interrogava, sem saber o que fazer de si, pela primeira vez sozinho, quando ela enfim, alegando cansaço, recolhera-se mais cedo. Sentia vagamente que se tornara instrumento de designio outros, poderosos, desconhecidos - já não era dono de si mesmo. Você não soube escolher - lhe dissera Toledo: foi escolhido. Escolhido por quem? por que? Designios de Deus? [...] Voce acredita em Deus? já nem sabia em que acreditava, nao tinha tempo para pensar. Você vive muito depressa - o pai tinha razão, era isso, depressa demais. Essa ganancia de viver. Gostaria de ser um homem sereno, comedido, um escritor como Machado de Assis. Era preciso ir devagar - saber envelhecer. O fruto que apanhava ainda verde deixava apodrecer na mão. Casado. A vida o afastava de sua origem, de sues amigos. [...] o tempo empurrava com força demais e isso era terrivel. Mal podia sentir o gosto das novas experiencias, já não eram novas, ficavam logo para trás, o passado, ele que não tinha presente, não tinha nada, não fizera nada - por que não podia parar um pouco, descansar, não dar mais um passo? Nascemos para morrer - nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contradições, dizia o pai. Onda as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar. [...] O tempo acontece, o que tinha de ser já foi, agora a nostalgiia de já ter sido em experiencia, etcetera, etcetera. E está certo não se pode fazer das dúvidas de outrora o pão nosso de cada dia: não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei. Sozinho: sozinho no mundo [...]. Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa, não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos - hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir em pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus. Não adianta pensar, a mão de Deus é pesada mas me protege a cabeça, tudo que faço nasce feito, sozinho, não adianta chorar, meu Deus, nem tenho motivos para isso, muito pelo contrário, é preciso reagir, a literatura não adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa, poderia fazer um café, Antonieta dormindo e o botão do pijama, meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve, não incomoda os que trabalham, os trabalhos do homem são penoso, estou casado, estou cansado, estou abatido, em verdade estou destroçado, andei depressa demais, agora chega, basta, pára, pronto! acabou. Assim. Fique quieto. Que nenhum som te denuncie. Calma, Não olhe. Não mexa. Não queira. Não estou dormindo, estou vigilante, hay que vigilar las tinieblas, capisca? ai, Minas gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas...
De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."